A Europa Carnívora – Por Sandra Mian

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Olá Pessoal, tudo bem?

PLANT-BASED

INTRODUÇÃO À EUROPA CARNÍVORA

A Europa, em um determinado período da História Universal, tornou-se o centro do mundo e forjou-se aí o que chamamos de sociedades ocidentais. Os países que se ‘ocidentalizaram’ seguem hoje os princípios políticos, econômicos, religiosos e filosóficos que nasceram na Europa. Não cabe aqui entrar em detalhes sobre como a Europa passou a exercer essa influência em um determinado momento, tomando o lugar que antes e por períodos muito mais longos pertencia às sociedades orientais. Tampouco cabe aqui a discussão sobre se a Europa e a visão de mundo ocidentalizada vão continuar a dominar e por quanto tempo. Muitos historiadores creem que esse período vai ser curto e que, inclusive, o pêndulo já está retornando ao Oriente. Como o tempo histórico é muito mais longo que o tempo das nossas vidas, vamos nos ater ao fato de que hoje no Brasil e em boa parte do mundo as pessoas estão seguindo os padrões que foram forjados na Europa.

Os hábitos alimentares de hoje tiveram também suas origens naqueles momentos históricos e é isso que vamos buscar entender nesse pequeno texto.

         Vimos anteriormente que a civilização greco-romana tinha como base alimentar a famosa tríade do Mediterrâneo: cereais, vinho e azeite. Dentre os cereais o trigo era considerado o mais nobre. Produtos da caça e colheita eram considerados inferiores e os povos que os consumiam como principal fonte alimentar eram considerados bárbaros.

       O Império Romano cresceu muito e acabou se aproximando cada vez mais dos povos bárbaros, os que não falavam latim nem comiam como os Romanos. E em determinado momento os Romanos usaram mercenários bárbaros na defesa do Império. Havia uma grande migração em toda a Europa e nos anos 400 o antigo Império Romano estava sendo invadido por todos os lados. Como solução os Romanos resolveram empregar um desses povos bárbaros, os germânicos, na defesa das fronteiras do Império

         E os povos que acabaram conquistando Roma foram exatamente esses  antigos aliados, os Germanos. Essas tribos ‘bárbaras’ vindas do Norte tinham um padrão de comportamento bem distinto dos Romanos, especialmente na alimentação. O Norte da Europa sendo muito mais frio que o Mediterrâneo não permitia o consumo de vegetais, vinho, azeite de oliva e trigo. Naquela época o Norte da Europa era completamente coberto de florestas e a caça era uma das principais fontes de alimentação. Como o trigo e a uva não cresciam bem naquelas regiões, os germanos usavam outros cereais como a cevada, aveia e centeio. Com a cevada faziam sua bebida intoxicante, a CERVOISE ou CEREVISIA. Sim, vocês identificaram certo! Eles bebiam cerveja e não vinho! A cerveja naquela época era ainda feita sem o lúpulo, era densa, opaca e muito nutritiva. No lugar do azeite de oliva usavam as gorduras animais: banha e toucinho e manteiga. Ou seja, a alimentação dos povos germânicos era extremamente dependente da floresta, da caça, dos produtos de origem animal.

         Lembremos também que a civilização greco-romana só consumia carnes após o abate ritual, com os sacerdotes dirigindo o ritual e ofertando parte da carne e gordura aos deuses. O consumo de carne era pequeno e ritualizado.

         Esses povos germânicos pertenciam a várias tribos como os godos, visigodos, ostrogodos, francos, anglos, normandos, etc. Foram esses povos, miscigenados com os greco-romanos, que formaram a atual população de boa parte da Europa: alemães, franceses, italianos, ingleses … O ano de 473 ACE (depois da Era Comum, ou seja, depois de Cristo) marca teoricamente o fim do Império Romano e o começo da Idade Média. Gradualmente o conquistador passou a assimilar os hábitos, leis, costumes e religião do povo conquistado: os bárbaros passaram a ser católicos, a comer pão de trigo e a tomar vinho … mas nunca deixaram de consumir seu alimento preferido, a carne! E aí entra também a Igreja Católica e a sua influência na Europa Carnívora…

         Pode parecer paradoxal que o Catolicismo tenha incentivado o consumo de carnes já que temos a imagem de monges ascetas e dos jejuns, especialmente durante a Quaresma, associados à Igreja Católica. Mas houve algo muito interessante nas pregações de Jesus que validaram o consumo de carnes na Europa, principalmente a carne suína. Jesus era judeu e como todos os judeus ele não consumia os produtos proibidos pela lei Kosher. Um desses alimentos era a carne suína. Ao contrário, os bárbaros germânicos consumiam muito os javalis e porcos selvagens. Uma imagem que nos remete a esse período da História é a de Asterix, o Gaulês, e seu grande amigo Obelix, que comiam vários javalis inteiros de uma só vez. Mas Jesus disse: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.” E com isso os seguidores dessa nova religião, os Cristãos, entenderam que Jesus os estava também liberando da lei Kosher dos judeus. Isso foi um ponto extremamente positivo na catequização e conversão dos bárbaros ao Catolicismo: eles poderiam continuar com seus hábitos alimentares sem problemas. Outro ponto interessante é que os seguidores de Jesus aboliram os sacrifícios animais em louvor a Deus. A ideia era a de que o sacrifício máximo havia sido feito pelo próprio Jesus e que não era mais necessário nenhum sacrifício animal. Era pelo comportamento, pelos “atos, palavras e omissões” que Deus examinaria a vida dos conversos no Juízo Final. Ou seja, o Catolicismo DESSACRAMENTALIZOU o consumo de carnes. Agora a carne não era mais um alimento especial, só consumido em situações muito especiais e após todo um ritual de abate, distribuição e consumo comunitário. A carne passa a ser um simples alimento. Há várias passagens no Novo Testamento em que Paulo e outros apóstolos discutem se os conversos ao cristianismo poderiam ou não comer junto com os pagãos ou adoradores de outros deuses. Uma das recomendações era não comer com eles caso a carne que estivesse sendo servida houvesse sido abatida ritualmente como oferenda aos deuses. Nada mais claro: para os Cristãos a carne não poderia ser proveniente de um ritual. É interessante notar que esse preconceito perdura até hoje e que inúmeros cristãos condenam as religiões de matriz africana exatamente por esse aspecto, o sacrifício de animais. Aliás, não só os cristãos mas inúmeros veganos e vegetarianos usam o mesmo conceito de milhares  para condenar um grupo que não pensa ou age como eles. Quanto mais o tempo passa, mais as coisas se repetem …

         Simples? Nem tanto … A carne passa na verdade a ser o símbolo da virilidade, já que os carnívoros eram grandes guerreiros e fortes caçadores. É marcante os comentários dos primeiros cronistas da Idade Média sobre a forma física dos povos germânicos: em geral eles eram considerados gigantes quando comparados aos greco-romanos. O consumo de proteínas era muito superior entre os bárbaros e isso se refletia no tamanho dos indivíduos. Mas com o aumento da população e transformação das florestas em campos agrícolas havia cada vez menos caça e essa passou a ser um direito da nobreza, dos novos líderes conquistadores. Isso fez com que a carne fosse associada às classes sociais mais altas, um símbolo de status e prestígio.  O povo e especialmente os camponeses continuaram a consumir uma dieta basicamente ovo-lacto-vegetariana ou quase vegana na maioria do tempo, o que faz com que a carne passe a ser um objeto de desejo, algo que gerava “fome psicológica”: fome de carne.

         Os povos do norte da Europa, agora cristianizados, passaram a ser os líderes do continente e gradualmente do planeta. Os anglos e saxões, por exemplo, sempre foram grandes consumidores de carnes. Quando a Inglaterra passa nos séculos 18 e 19 a ser um império mundial, o padrão de consumo alimentar dos ingleses se converte em modelo para as populações conquistadas. Uma das explicações dos ingleses sobre a conquista da Índia era que os Indus não consumiam carnes e por isso se deixaram conquistar facilmente. A mesma ideologia entrou com muita força nos Estados Unidos desde a colonização no século 17. Com a abertura do Oeste americano e a criação extensiva de gado pela primeira vez na História – a cultura dos ‘ranchs’ – o consumo de carne bovina aumenta exponencialmente. O mesmo na América Latina com a introdução de bovinos pelos espanhóis e portugueses.

         Algo único na história foi o que aconteceu nas Américas com relação à produção de gado especificamente para o abate. Na Europa existia evidentemente essa produção, mas não da forma que ela aconteceu nas Américas. Surge no Novo Mundo uma indústria que de alguma forma dessacraliza ainda mais o gado. Na Europa e em outras regiões o gado, fosse ele bovino, caprino ou ovino, era mais uma fonte de renda pelos subprodutos (leite, lã, força motriz) que pela carne em si. Em algumas sociedades africanas tradicionais até hoje o gado vivo tem mais valor que o animal morto. Nas América houve essa inversão de valores e a carne passa a ser o valor associado ao animal.

         Evidentemente o que expusemos aqui é apenas uma visão geral dos fatos. Muitos outros fatores geopolíticos, culturais, religiosos e econômicos influenciaram o consumo de carnes, mas não há como negar que a conquista da Europa pelos povos germânicos e o Catolicismo influenciaram e influenciam até hoje os hábitos alimentares da humanidade.

         Muitos podem pensar que esse tipo de digressão nos dá apenas um verniz cultural e nada mais. Ledo engano. Hoje, com uma crise ecológica anunciada devido ao aumento populacional associado a um aumento no consumo de produtos de origem animal a nível mundial, temos que repensar o uso desses produtos. Mas sem um entendimento do porquê estamos nessa situação hoje não é possível pensar caminhos alternativos. Temos que entender de onde viemos, porque estamos nessa situação, o que gerou o problema. Sem isso vamos continuar a criar mais problemas no lugar de criar soluções duráveis.

         E aqui ficam alguns questionamentos para os leitores:

  • Transformar proteínas vegetais para que elas se pareçam com carnes seria a solução?
  • Qual o ‘custo’ real em energia, carbono e água para a produção de ‘carnes’ vegetais versus carne animal? Quais poderiam ser os impactos dessa produção a largo prazo?
  • Carnes produzidas em laboratório teriam a mesma conotação cultural que as carnes de animais reais?
  • Como poderíamos reduzir o consumo de produtos animais baseados nos conceitos culturais desse consumo (emulação social, virilidade, etc.)?

Autor: Sandra Mian

Gostaram? Assistam o vídeo até o final e deixem o seu comentário.

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